sexta-feira, fevereiro 08, 2008

A proposito das baleias


Toda a gente sabe que o Japao teima em continuar a cacar baleias. A desculpa oficial e que as capturam para investigacoes cientificas. E toda a gente tambem sabe - ou se nao sabe, desconfia - a grande mentira que isso e.
A minha experiencia diz-me que o Japao e um pais com muitas mentirinhas pelo meio. Nada de mais, mas, por exemplo, mesmo que eu esteja a ver o meu gmail no computador da escola, devo sempre dizer que estou a fazer uma qualquer busca na internet para as aulas de ingles. Sao as aparencias que tantas vezes tenho referido aqui. E, quem me conhece, sabe bem que nao me dou bem com as ditas aparencias.
O que quero dizer com isto, e que essa desculpa esfarrapada da ciencia nao funciona. E o mundo bem que o sabe. Parece que esse mesmo mundo anda a brincar as moratorias internacionais. Se bem que ha outros paises que nao assinaram a dita moratoria (a Islandia, a Noruega), tambem e verdade que o Japao continua a gastar recursos para manter uma tradicao estupida e sem sentido nenhum.
O proprio primeiro ministro defende a continuacao destas cacadas quase medievais. La mandam o Nishi Maru para as aguas da Antartida todos felizes e contentes, do alto da arrogancia nacionalista que o Japao ainda exala. E uma pena, devo dizer. Porque se falarem com os comuns japoneses, ninguem quer saber disso para nada. Nao lhes importa a caca a baleia. Nao e relevante. O que lhes importa e saber que as familias japoneses estao a mudar e ninguem faz nada, que o dinheiro das pensoes de umas quantas pessoas desapareceu e niguem faz nada, que a natalidade e baixissima e que os senhores andam a mostrar graficos uns aos outros no parlamento e ninguem faz nada, que os jovens nao conseguem iniciar carreiras e niguem faz nada ou que vem uns gyoza marados da China e ha um ministro a dizer que eles fizeram de proposito, como se um ministro de um governo (a nao ser que seja um governo tambem ele marado) pudesse fazer tais afirmacoes sem provas absolutamente irrefutaveis.
Eu sei que muita gente deve achar que me preocupo com coisas sem sentido, como as baleias. Ele ha gente a morrer no Darfur, gente a morrer na Coreia do Norte. A diferenca e que este pais e uma democracia. E como tal, devia respeitar a conduta internacional, nao se baseando num nacionalismo bacoco e que nao faz sentido nenhum. Como disse, o japones comum nao quer saber se ha baleia para o jantar ou nao. Muitos deles, nem sequer nunca provaram carne de cetaceo. Mas quem manda no pais, nao sao os jovens. Alias, esses andam completamente arredados da politica nacional, tal a aridez da coisa. Mas ha um grupo de oligarcas e de interesses estabelecidos que manda no pais. Os primeiros ministros normalmente vem de linhagens ja no poder, o amigo do amigo e, e depois sao todos muito velhos e nao importa se sao do partido A ou B, porque o que muda sao as moscas. Se em Portugal nao se sabe bem qual a diferenca entre o PS e o PSD, no Japao consegue ser ainda pior. E depois, o partido que esta no poder ha anos e anos e sempre o mesmo. Portanto, rotatividade e coisa que nao existe na verdade, e mesmo que existisse (houve de facto uma pequena vitoria da "oposicao" para uma das camaras do parlamento nas ultimas eleicoes) nao serviria de nada. Alias, nem debates de ideias existe neste pais. O que se ve sao os politicos a berrarem do alto de carrinhas e acenarem com bandeirolas. Mas ouvirem pessoas ou os seus adversarios esta quieto.
Mas voltemos as baleias. E errado andar atras dos bichos, pela simples razao de que qualquer dia nao havera bichos desses de todo. Bem pode o Japao apregoar que os seus numeros tem recuperado... Mas, afinal, entao, onde esta a consciencia ambientalista que eles tanto apregoam ter? La esta, mais uma mentirinha pequenina. Alias, a julgar pela quantidade de plastico que usam neste pais (ir ao pao equivale a trazer dois saquitos de plastico!) de ambiestalistas tem muito pouco.
E depois ha outra coisa: o mundo nao e parvo. E muito menos o novo governo australiano. Muito dado, esse sim, as causas do ambiente.
Para quem nao sabe, a Australia e de extrema importancia estrategica (a todos os niveis!) para o Japao. So que desta vez, a coisa nao esta a funcionar muito bem... A Australia ja disse que o Japao nao pode cacar em aguas australianas. E a Australia segue a moratoria assinada ha nao sei quantos anos. Tanto que chegou a mandar uns avioezitos para ver o que se passava. E o resultado foi muito simples: se algum barco da frota japonesa de pesca a baleia acostar a um porto australiano, vai tudo preso!
Ir preso, porem, nao impede que os activistas ambientais (eles mesmos, convem dizer, muitas vezes extremistas nas suas posicoes e accoes!) continuem a tentar impedir que os japoneses cacem uma baleia que seja. Quanto mais quando se ve, como vi hoje de manha na BBC, que os marotos do Nishi Maru capturaram uma mae e sua cria. Devem querer fazer testes de ADN aos bichanos para descobrirem quem e o pai da cria, com certeza.
E bem verdade que ha formas ainda mais crueis de tratar os animais. Abandonar uma cadela atirando-a encosta abaixo, por exemplo, ou extraindo a bilis de ursos vivos mantidos em jaulas sem espaco ou condicoes algumas, como fazem na China. Mas quando ha acordos internacionais tao veementemente quebrados, so me apetece e manda-los dar uma volta ao bilhar grande!
Lembro-me que, uma vez, a Rhea me disse que chegou a hora de almoco numa das escolas e havia escolha de menu. Ela nao sabia o que era e nem tinha, por acaso, escolhido nada. Um dos pratos era pimentos recheados, mas a escola tinha escolhido o outro prato do menu para a Rhea. Imaginem la o que era... Sim, isso mesmo, BALEIA. Chichinha de baleia. E a Rhea, que ate e uma moca calminha, disse logo que nunca comeria aquilo. E a conta da sua recusa, a professora obrigou um dos miudos dos pimentos a trocar com ela. Pena tenho eu em saber que a maior parte dos miudos comeu baleia. Mas o que importa aqui nao e a escolha dos miudos (eram da primaria, nao sabem nada da vida), mas o simples facto de a carne da dita cuja ter chegado ao menu escolar! Entao se as baleias sao cacadas por elevadas razoes cientificas, porque raio estao no cardapio das escolas? A nao ser que os senhores cientistas tambem andem a fazer experiencias com as criancinhas. Tenho ca para mim, que nao e nada disso... E se este episodio se passasse com a minha pessoa, eu nem quero imaginar o que faria! Acho que sairia porta fora!

Enfim, precisava de tirar isto de cima dos meus ombros. Para mim, muito sinceramente, desculpas baseadas em tradicoes nao funcionam. Nao funcionam para Barrancos (em tempos que ja la vao, nao havia morte de touros naquela terra!), nem para a caca a baleia. Como disse uma vez a Maria Jose quando lhe perguntei porque se fazia nao sei o que daquela maneira ineficaz e ela me respondeu que sempre se tinha feito assim eu so lhe disse: "nunca me responda isso. Se assim fosse, a Maria Jose estaria a usar espartilho e de saia comprida. E provavelmente nem estaria a trabalhar [fora de casa]". E assim e para o Japao. Salvo a metafora!
Bem podera a tal oligarquia dizer que ninguem tem o direito de dizer que os japoneses nao podem comer carne de baleia. E eu concordo. Mas nao se trata disso aqui! Isso e um argumento invalido! Trata-se simplesmente de mudar o destino de uma especie que continua em risco. Somente isso!

16 comentários:

mulher a dias disse...

Ai menino, que grande maldade isso das coitadinhas das baleias, um animal tão simpático! E o menino preocupado se os linguados eram frescos, nota-se que é muito sensível e ajuizado! Bem haja e um dia feliz.

Celeste disse...

Pensamentos:

1º: Apetece-me cantar Roberto Carlos: "E um dias os seus netos vão perguntar pelas baleias que cruzavam os oceanos... lá, lá"

2ª: Adorei essa das moscas, não conhecia! :D

3º: Curto á brava os australianos, esses grandes malucos... Yheee!

4º: Estás a precisar de vir de férias cá à pátria... vais ver que logo engraças mais com o Japão outra vez!

Beiji*** :)

Graduated Fool disse...

A frase final diz tudo e muito bem. É mesmo disso que se trata.

Ana Baião disse...

Ai querido adorei. Mas, com todo o respeito que o assunto merece, o que gostei mais foi imaginar a Maria José a trabalhar todo o dia (duas horas por aí) de espartilho.
E não daria muito jeito para estar quatro horas a cuscar ao telefone.
Bjs
Ana Maria

João Carvalho disse...

Hummmm...

Acho que não te tinha visto a «botar» discurso tão longo... E apesar de ser tão longo, o facto é que consegues não perder o fio à meada...

O que posso eu acrescentar? Que concordo com cada centímetro de sílaba que escreves!

Há uma diferença grande entre comer caracóis e comer choquinhos... Há uma diferença em usar mata-moscas em casa e em beber chá de chifre de rinoceronte... Há uma diferença entre ciência e sobrevivência...

No fundo a diferença trata-se de sermos protectores do mundo ou sermos uma mera peste insuportável...

Da Costa De Carvalho dixit

cris disse...

Tens toda a razão...e aí houve-se falar nas matanças dos golfinhos? É que aqui andaram a passar uns videos de verdadeiros massacres de golfinhos no Japão...mas às centenas.
Não acho isto nada normal nos tempos que correm, e ninguém faz nada para parar estes abusos.
Afinal de contas são "apenas" animais, mas são seres vivos que merecem respeito de todos nós.

Beijinhos de solidariedade ecológica:-)

Anónimo disse...

Chamo-me Antonio Burnay, sou português e vivo em Tóquio. Há já algum tempo que estou para lhe escrever, mas com o post das baleias e parafraseando o Ângelo, o peso tornou-se grande e tive que tirar isto de cima dos meus ombros e , também, peço desculpa pela dimensão do texto.

Verifico que no Ângelo um sentimento anti-japonês crescente. E, actualmente, bem vincado. A cultura japonesa é muito diferente da europeia. Não pode ser entendida pela lógica cartesiana que está na base do racicínio da cultura ocidental. A cultura japonesa é de “sentidos”. Para a compreender é preciso entrar nela e “sentir”. Mas isto é impossível sem dominar a língua japonesa. É extraordinário que o Ângelo está no Japão há quase 3 anos e ainda não fala japonês. Num dos últimos posts até chama “riscos” à escrita, mas não sei que graça isso tem. Não obstante, fala sobre as opiniões que apanha do japonês comum. Mas o japonês comum não fala inglês (talvez 90~95% dos japoneses não conseguem comunicar em inglês, e em Kyushu a percentagem ainda é maior). Por isso, como é que Ângelo sabe qual é a opinião do japonês comum?

Em 1989 (o ano 1 do actual Imperador) houve uma série de demissões de primeiros-ministros e o no Verão foram convocadas eleições. Nessa campanha houve uma conferência de imprensa que foi como um “gong” na minha cabeça: o leader da extrema-direita (ideologia pela qual não nutro simpatia, mas que ganhou muita força na altura), dirigindo-se directamente aos americanos, afirmou: “Vocês estiveram em guerra com a Alemanha, eles mataram mais gente e cometeram mais atrocidades do que nós, mas foi aqui, e não lá, que lançaram as bombas atómicas. Lá, eles são brancos, são da vossa “família”. Cá somos amarelos, não temos importância, não é?!”. Depois, um jornalista perguntou como se defenderia o Japão da União Soviética (o muro de Berlim só cairia em Outubro seguinte) sem o apoio dos EUA e ele respondeu: “Não precisamos dos americanos para nos proteger dos soviéticos. O nosso potencial militar é maior que o soviético. É certo que não possuimos oficialmente a bomba atómica, mas se for preciso podemos começar imediatamente a produzir o número de bombas que for necessário. Todos sabem isso.”

Oficialmente, o Japão ainda não tem arsenal nuclear, mas a maioria das bombas americanas é de tecnologia Made in Japan... O Japão é a 2ª economia mundial (o PIB é muito maior do que o do Reino Unido + Canadá + Austrália + África do Sul + Irlanda + Nova Zelândia juntos, tanto em valor absoluto, como per capita). Tem um nível de vida dos mais altos do planeta (maior do que o de qualquer país anglófono, incluindo EUA), a sociedade tem a menor disperidade de rendimentos em todo o mundo e o nível de escolaridade também é dos mais elevados que existem. O atendimento nas lojas e nos serviços tem uma simpatia e eficácia sem paralelo noutro país, tal como a segurança nas ruas e na alimentação (por isso, um pequeno problema em qualquer cidade é um problema nacional visto com enorme atenção, como o problema da gyosa que refere). Em tecnologia são um país de ponta e a qualidade dos produtos japoneses é elogiada em todo o mundo. A cultura japonesa é fortíssima e milenar, a culinária japonesa agora entrou na moda internacional. Os japoneses estão presentes no mundo na cena política (por exemplo, o vice-presidente do Trbunal dos Direitos Humanos em Haia é um juiz japonês) e económica (os japoneses têm o capital de dezenas de enormes companhias americanas e europeias). São um país de livre pensamento e acção, e a democracia mais antiga da Ásia (e durante décadas a única).

Todavia, muitos ocidentais (sobretudo gente dos países anglófonos) continuam a olhar para o Japão como um país exótico com uma grande população de indígenas. Olham o Japão com sobranceria e espírito de superioridade. Como se os japoneses tivessem que ser iguais aos americanos e europeus. E, muitos, nem chegam a fazer o esforço de aprender japonês. Provavelmente, são os japoneses que têm que falar inglês... As palavras daquele dirigente da extrema-direita têm sentido.

Em Roma sê romano. É um ditado antigo, e aplica-se aos emigrantes. Ora, ninguém é forçado a viver no Japão. Se o país é assim tão desagradável, ainda por cima com um ordenado baixo para os padrões japoneses, não vejo motivo para ir renovando contratos anuais e permanecer. Ó Ângelo, olhe que a felicidade pessoal não tem preço! Os contratos JET são anuais, até 3 anos e excepcionalmente extensíveis por mais 1. Ângelo pense bem que não é forçado a viver no Japão!

Alguns comentários sobre o post das baleias que provocaram o tal excesso de “peso”:
1. “Toda a gente sabe que o Japao teima em continuar a cacar baleias.” – tal como a Noruega ou Islândia, mas só se fala do Japão. Porque será?
2. “... o Japao e um pais com muitas mentirinhas pelo meio. Nada de mais, mas, por exemplo, mesmo que eu esteja a ver o meu gmail no computador da escola, devo sempre dizer que estou a fazer uma qualquer busca na internet para as aulas de ingles.” – pelos vistos o Ângelo também mente. Talvez porque acha que não é “nada de mais” (mas olhe que para um japonês uma mentira descoberta é uma coisa com graves consequências). Aqui no Japão não tem mal ver o seu email nas horas de trabalho, ou fazer um telefonema pessoal, se for num tempo curto e não o fizer a toda a hora. Sabe, aqui no Japão “trabalho é trabalho”, e as coisas pessoais ficam para os breaks e para depois do trabalho. Nunca viu aqui ninguém a atendê-lo numa loja e ao mesmo tempo estar a falar ao telemóvel ou a discutir a sua vida pessoal com um colega. Quando compra um frigorífico e lhe dizem que o põem em sua casa entre as 18:30 e as 19:00, o Ângelo sabe que eles estão mesmo lá entre as 18:30 e as 19:00. Para se atingir alto nível de serviço, de qualidade, de pontualidade, de respeito pelo cliente é necessária organização, empenhamento e regras.
3. “Como disse, o japones comum nao quer saber se ha baleia para o jantar ou nao. Muitos deles, nem sequer nunca provaram carne de cetaceo.” – como é que sabe, se não fala japonês? De facto, hoje é muitíssimo raro encontrar baleia num supermercado ou num restaurante (e golfinho, de que agora também se fala, é comido apenas na cidade de Shizuoka e arrepia a maior parte dos japoneses). E nas escolas também não. Depois de ler o seu post, telefonei para vários casais que têm os filhos em escolas diferentes e nunca tinha havido baleia no refeitório. O que aconteceu na sua escola é um caso extraordinário. Desde os anos 90 que o menu baleia é quase impossível, ainda que fosse muito popular nos japoneses com mais de 25/30 anos. Não lhe parece haver aqui uma contradição: se os japoneses caçassem assim tanto, haveria oferta. Como o Ângelo diz também que os japoneses nem querem saber de baleia, olhe que se calhar o objectivo da caçada é mesmo científico!
4. Faz depois umas referências negativas à política japonesa e comparações com a portuguesa. O que tenho a dizer é que no Japão há muito debate de ideias, mas não é feito em contradição e crispação como no ocidente. Ás vezes dou o exemplo do “Prós e Contras” que vejo na net com gosto porque sou português. Um programa destes seria impensável no Japão. Os japoneses fogem do conflito e da “bulha” como o diabo da cruz. É certo que chegar à decisão é mais lento, mas esta há-de ser “consensual”, não gerar “fraturas” e ser efectivamente aplicada. O Japão é uma democracia pura, os japoneses sabem o que se passa e sabem a que deputado pedir contas. Ainda anteontem, se o Ângelo entendesse a TV, teria ouvido o Jiminto pedir desculpas aos eleitores de Gifu, pela troca de uma deputada. Quanto às comparações com Portugal, o nível de vida dos japoneses, a saúde económica do Japão e a visão de futuro, dispensam mais comentários.
5. “Para quem nao sabe, a Australia e de extrema importancia estrategica (a todos os niveis!) para o Japao. So que desta vez, a coisa nao esta a funcionar muito bem... A Australia ja disse que o Japao nao pode cacar em aguas australianas.” – não entendo a que se refere quando fala dessa extrema importância estratégica. É muito maior o interesse da Austrália no Japão, como grande mercado e economia, do que o do Japão na Austrália que é um país grande em tamanho e recursos, mas de importância reduzida. O Japão não pesca em águas australianas, mas sim internacionais. Acontece que a Austrália reivindica águas e uma parte da Antártida e tenta ter papel grande na cena internacional (por isso mandaram tropas para o Afeganistão e Iraque). Mas isso é um problema dos australianos. Com os barcos japoneses nas águas internacionais nada podem fazer. E, olhe, Ângelo os japoneses devem estar aterrorizados com as ameaças dos australianos... Os australianos que se reduzam à sua insignificância e tenham juízo! e que passem a portar-se decentemente deixando, nomeadamente, de atormentar os Aborígenes!...
6. Eu não como, nunca comi e não conto algum dia comer baleia. Tal como sou incapaz de comer cangurú ou jacaré, que os australianos tanto comem. Mas sou capaz de comer coelho, que no Japão é tratado como cão ou gato e, por isso, impensável ser comido. Eles acham-nos uns selvagens por isso. Mas tudo isto tem motivos culturais fortes. Não está comprovado que todas as espécies de baleia estejam ameaçadas. Tal como não está comprovado em relação ao bacalhau e à sardinha. Penso que deve respeitar-se a “não caça” quando o perigo é evidente e não manipulado para fins políticos. Mas há muitos mitos. Que pena toda esta energia não ter existido quando os americanos dizimaram os bisontes ou os europeus dizimaram os rinocerontes, elefantes, chimpazés ou jacarés entre outros. Ou os lobos e javalis, que voltaram a reproduzir-se em número tal que, agora, é de novo incentivada a sua caça.

A alimentação japonesa só tem carne desde há 100 anos! A cultura japonesa vive do mar e acredite que eles são muito sensíveis ao equilíbrio do ecosistema. E são dos países mais avançados no protocolo de Quioto. Claro que tratando-se de uma superpotência económica há questões de resolução difícil, mas conversam e procuram soluções, o que o presidente Bush nem sequer faz. Estou certo de que sem crispação e ultimatos se encontrará solução. Com violência, os japoneses costumam reagir mal...

Com os melhores cumprimentos
Antonio Burnay

Angelo disse...

Caro Antonio,

Antes de mais, quero agradecer-lhe o seu comentario. Podera pensar que nao gostei ou que fiquei ofendido, mas acredite sinceramente que gostei muito de o ler e so espero poder vir a le-lo mais vezes.

De facto, num dos ultimos posts, referi-me ao japones como sendo "riscos". Nao me conhecendo pessoalmente podera ter ficado com a ideia de que estava a tentar ofender o Japao de alguma forma. De todo! Eu usei esse termo somente para mostrar a minha propria confusao. Nada mais.

Sem duvida que a cultura japonesa e diferente. Mais uma vez, acredite ou nao, ha muitos aspectos que me satisfazem neste pais. Como referiu, a seguranca, a excelencia nos servicos, etc. Porem, e como em qualquer sitio do mundo, ha coisas que nao entendo e com as quais tenho problemas. O resultado da evolucao de uma cultura nao me parece servir de justificacao a qualquer acto. Muito menos quando poe em risco especies que ainda estao ameacadas (como diz, e muito bem, nao ha provas concludentes de que nao estejam ameacadas).

E verdade que nao domino o japones e que nao vejo televisao japonesa. Mas conheco muita gente japonesa, com quem tenho o maior prazer de conviver. E e com eles que falo. Alias, por forca do que faco no Japao, conheco muita gente e procuro sempre ouvi-los. E jamais tentaria impor a minha opiniao sobre qualquer coisa que alguem me dissesse. E bom conversar e partilhar ideias.

Numa coisa tem toda a razao: no Japao nao ha batalhas campais (que sao de lamentar, sim senhor), mas isso leva a que as decisoes levem demasiado tempo. E isso preocupa-me. Alias, nao so me preocupa a mim como tambem preocupa o japones comum. Que la esta, conheco, porque nao vivo em nenhuma redoma de vidro.
Eu nao olho o Japao de uma forma sobranceira. Muito pelo contrario. Mantendo o que acabei de dizer, temos muito que aprender com esta cultura em termos de convivencia social. Mas continuo a achar que o Japao ainda tem um sentimento nacionalista demasiado forte que o impede, ate, de lidar de forma imediata com a quebra da taxa de natalidade, por exemplo. Mas isso e outra conversa.

Sim, o Japao e um pais que esta no topo de muitas listas. E eu nao me canso de o referir. Mas nunca entenderei porque que, mesmo assim, quando e preciso um servico em ingles este nao existe ou dizem-me para trazer um amigo japones. Para isso, nao ha desculpa e acredite que acontece desde a servicos de televisao por cabo a atendimento em reparticoes oficiais que lidam com estrangeiros.

Por acaso, o JET permite, agora, novos contratos ate um maximo de 5 anos.

Eu nao minto. Porque quando vejo o meu email, faco-o quando nao estou ocupado - porque a minha obrigacao profissional vem primeiro - e quando o computador esta livre. Jamais deixaria de fazer o que devo fazer para estar na internet ou ao telefone. Nem aqui, nem em Portugal, nem em lado nenhum.

O episodio da carne de baleia numa escola aconteceu ha uns 3 anos, nao comigo, mas com uma amiga. E ja ouvi pelo menos uma outra historia igual. E, ja agora, com a quantidade de escolas que existem no pais (e felizmente que e assim), nao haveria muita carne para todas. Dai a raridade da coisa.

A comparacao que fiz com a politica portuguesa foi puramente jucosa, para que as pessoas que me leem em Portugal me pudessem entender melhor. Se e bem verdade que nao vejo televisao japonesa, tambem e verdade que leio os jornais japoneses traduzidos em ingles.

E por aqui me fico, com votos sinceros de um optimo fim de semana.

Com os melhores cumprimentos,
Angelo Meneses

Anónimo disse...

Ângelo,

Obrigado pela sua resposta. Ainda bem que não ficou ofendido. Não era essa a intenção, mas depois de a reler pensei comigo mesmo – ó Antonio, foste bruto!

Sabe Ângelo, eu fui CIR em Nagasaki (aí bem pertinho de Oita) há anos e isso foi uma experiência extraordinária. Uma das tarefas mais penosas era fazer a “ponte” entre dezenas de ALTs e os serviços e regras dos japoneses. Foi uma missão complicada e, às vezes, até hilariante.

Por exemplo, os japoneses pediam-me para dizer aos ALTs que não fossem à reunião de calções e chinelos. Isto parecia-me ridículo e, da primeira vez, disse que disse, mas tive vergonha de dizer e, de facto, não disse nada. Então não é que aparecem mesmo alguns americanos e australianos de chinelos, calções e camisolas de alças?! Eu estava embarassadíssimo, não sabia onde me enfiar e serviu-me de lição.

Outro problema eram os carros e a tolerância zero. Americanos, canadianos e australianos não conseguem viver sem um carro. Como o Ângelo sabe, as penalizações para os acidentes no Japão são a sério, dando cadeia. Sobretudo quando são provocadas pelo álcool. Ora, os anglófonos em geral não são capazes de “festejar” sem, quase sempre, muito álcool. Nos meus primeiros anos de Japão a tolerância zero parecia-me um exagero, mas hoje concordo. É mais clara que a tolerância zero vírgula não sei quantos que há na Europa. Eu, por exemplo, se beber meia garrafa de vinho, estou nos limites e tenho consciência quando sou capaz ou não. Mas há muita gente que não tem, e há outros que têm a noção que ultrapassaram o limite e, então, perdido por um perdido por mil. Com tolerância zero ou bebe (mesmo que seja um cálice) ou guia. Não há dúvidas. É certo que aqui no Japão, a tolerância zero permitiu um grande negócio para as empresas de motorista que levam o carro a casa, mas mesmo assim concordo.

Outro problema, eram algazarras, desmandos e cenas de violência em bares e discotecas, que ocorriam de vez em quando. Uma vez fui acordado de madrugada para ir à polícia fazer tradução. Era embaraçoso porque eu também era estrangeiro, e de algum modo bi-cultural, apercebendo-me de razões defansáveis de ambos os lados! O melhor era não ter havido cenas de algazarra, violência, ou de depravamento sexual...

Quem criava problemas era uma minoria e “miúdos”, mas afecta a imagem de todos os estrangeiros. Tenho amigos ALTs. A maior parte dos ALTs, embora muito jovens, é gente com graça e alguns são (ou vão ser) pessoas de grande qualidade. Mas quase todos não falam japonês, o que os impede de entenderem o Japão.

Não falar a língua de um país onde se vive é duro, mas quando a cultura não é ocidental é martírio. Aprenda japonês, Ângelo, e vai ver que se lhe abre um mundo cheio de côr, oportunidades e até agora desconhecido. Aprender japonês não é fácil – num ano, eu tive 2.000 horas de aulas, estudei 3.000 caracteres e, no fim, ainda não era capaz de entender a TV. Mas para atingir a meta há que ir passo a passo, mas decidido. E o primeiro passo, que como diria o La Pallice é essencial, começa quando quisermos...

Eu tenho muitos amigos anglófonos e excelente relação. A maioria deles fala japonês e conhece o Japão há muito tempo (já sou quarentão...). Mas, mesmo assim, a visão de que os EUA ou o RU está no centro do mundo, e que o Japão de algum modo há-de seguir as mesmas pisadas, percebe-se que lhes está nos genes. Isto é ainda mais evidente em jovens com pouca experiência de vida e que a única língua que sabem falar é inglês. Nos jornais japoneses em inglês, na Metropolis, nos blogues de estrangeiros que vivem no Japão, o que mais se ouve são queixas e mais queixas de ALTs. São queixas permanentes, repetitivas, sobre o comportamento dos japoneses. Na realidade eles não admitem que ainda não se funcione (e pareça não querer funcionar) como os americanos ou australianos, etc. Como os seus posts dos últimos 2/3 meses têm um conteúdo crescentemente parecido com aquelas queixas, eu pensei para mim mesmo: o Ângelo parece ser um tipo com graça, sendo latino tem um background de cultura e instrução superior aos anglófonos, por isso vamos lá “agitá-lo”!... Eu sou políticamente moderado, mas não vejo porque é que o mundo há-de gravitar à volta do modelo de vida americano, apesar dos seus aspectos positivos.

Angêlo, não se deixe enganar pelas aparências (no Japão nada do que parece, é!). O facto de muitos jovens terem um comportamento diferente da sociedade senior não diz muito em relação ao futuro. Sempre assim foi. Eu já li e vi muito sobre isto no Japão. Quando esses jovens “diferentes” entrarem no mundo do trabalho e da família, vão ser japoneses como os outros. O “grupo” não perdoa! É certo que há influências americanas crescentes na sociedade japonesa e algumas deixaram, e vão deixar, marcas (infelizmente nem sempre positivas). O Japão de hoje não é igual ao do fim da guerra, mas também a Europa não é... As tecnologias, e com grande contributo do Japão, também cresceram enormemente. O que é extraordinário aqui é a preservação (mesmo que seja em paralelo) dos valores e dos costumes a que poderiamos chamar de “Japão profundo ou ancestral”. O tatemae (o tal manter automático de aparências) deve ajudar muito.

Para um japonês comum, se alguém é estrangeiro, é americano! (excepto se não for branco, e este foi outro problema que tive em Nagasaki com os alunos de uma escola a regeitarem uma preta americana), e mesmo que não seja americano, se é estrangeiro fala americano! (que é de facto como aqui se deveria chamar à língua inglesa). Por isso faço gala de, sempre que necessário e possível, mostrar a diferença. E o bom comportamento dos italianos, franceses, espanhóis ou portugueses em contraponto com o dos anglófonos. Exagero, por vezes, não tenho que me meter na sua vida, fui talvez deselegante e peço que me desculpe por isso.

Como maldadezinha (e provocação final): às vezes fico satisfeito de “ninguém” falar inglês, ou de não haver menu em inglês, mesmo que os índices estejam escritos em inglês (não é isto ridículo?). Os japoneses cumprem melhor que os portugueses a recomendação do Eça de Queiroz: deve falar-se patrioticamente mal as línguas estrangeiras. Mas eu compreendo-o bem, Ângelo (até porque Oita, ou mesmo Fukuoka, ainda é muito menos internacional do que Tokyo). A dificuldade de comunicação é algo muito duro quando não se está de visita, sozinho e num lugar a 15.000Km das raízes.

Coragem e Aprenda japonês!!!

Com os melhores cumprimentos
Antonio Burnay

PS Embora desligado do programa JET, durante anos mantive contacto com o JETport que é o grupo de ALTs de língua portuguesa (são quase todos brasileiros). Há 3 ou 4 anos (não consigo precisar a data porque não guardei os mails), penso que foi pouco antes do Ângelo vir (talvez o Ângelo, penso que eram 2 portugueses), houve um “motim”, uma “rebelião”, dos JETs brasileiros zenkoku (por todo o Japão). “Parece impossível que o Monbushou recrute portugueses para ensinar as crianças brasileiras”. “Os portugueses são europeus, por isso ficam sempre à frente dos brasileiros”. “ninguém manda os filhos ás aulas deles”, etc. Os disparates, a má-criação e os abaixo-assinados eram incontáveis... Também me parecia lógico ter brasileiros a ensinar brasileiros. Todavia criar fissuras públicas no ensino do português no Japão é mau para todos os lusófunos. Depois, através da Maria João da Embaixada do Japão em Lisboa soube que esses 2 portugueses vinham ensinar inglês, o que também me surpreendeu (mas acho isso saudável, e é à japonesa...). Tentei acalma-los com esta nova informação. Como defendia calorosamente os 2 compatriotas e atacava a irracionalidade da posição do grupo, começam então a chover desculpas: “Antonio, me desculpa, é você o ALT”, “Ah, não minta eu sei que é você”. “Brigada, viu, se é você é legal.” Aí está então o António “bruto”: “Que disparate! Seus idiotas! Há muito que o meu trabalho não tem nada a ver o JET! Portem-se com inteligência. Para que é que vos serve a cabecinha?”. Mas afastei-me do grupo, até porque na realidade já quase não conhecia ninguém pessoalmente.

João Carvalho disse...

Amo o Japão!

E todavia como sou humano também peco e odeio! Simplesmente odeio algumas coisas no Japão!

Eu aprendo japonês em Portugal... Não preciso de lá ir (e vou!) para gostar de aprender!

Talvez possa recomendar ao Ângelo alguns temas para ele desenvolver futuramente neste blogue...

Talvez ele possa começar pelo (quase) extermínio dos ainus... Esses aos menos são pessoas e assim todos ficamos a saber do que estamos a falar...

Da Costa De Carvalho dixit

João Carvalho disse...
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João Carvalho disse...
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João Carvalho disse...
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João Carvalho disse...
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Antonio Rebordao disse...

Gostei do teu diálogo com o Antonio Burnay. Entretanto desde ontem que me podes chamar Mestre... :-)

Abraços e aprende Japonês

Angelo disse...

Caro Antonio, ca estou eu de novo!

E nao se preocupe, que nao foi assim tao bruto! Eu gosto de trocar opinioes, que e das coisas mais saudaveis que existe.

Compreendo perfeitamente a sua posicao enquanto CIR. Eu tambem vejo isso e chamo a atencao das pessoas quando necessario. E verdade que eu mesmo vou de chinelos e calcoes para a escola quando o calor aperta. Mas eu sei que o posso fazer. Jamais o faria aquando de uma reuniao.

Nao sei se alguma vez o escrevi no blog, mas eu sou um fervoroso adepto da tolerancia 0 que o Japao tem em relacao a conducao com alcool. E verdade, como disse, que ha ai uma grande coincidencia com o grande negocio que sao os taxis e essa conducao personalizada, mas parece-me o resultado logico da coisa.
Por acaso, desde que aqui estou, nunca houve problema com ninguem... A nao ser um rapaz que se embebedou e ficou em roupa interior no meio da rua e policia nao gostou, claro.

Tambem concordo quando diz que os que causam problemas sao uma minoria de miudos...

A lingua. Pois bem. E verdade que, ultimamente, deixei de estudar. Tive um pequeno precalco com o teste de japones e fiquei mesmo desmoralizado (a proposito, fiz o teste numa sala gelada, quando o equipamento de ar condicionado estava por cima de nos!). Mas nao pense que deixei de aprender. E verdade que nao me dedico ao estudo desse incrivel mundo dos kanji, mas vou aprendendo passo a passo.
Mas, se reparar, as vezes que me vou aos arames com a falta de ingles no Japao e, sobretudo, em locais oficiais... Eu nao entendo como e que na esquadra central de Oita havia uma pessoa a falar ingles, como e que nos correios centrais ninguem fala ou ate como no balcao de atendimento a estrangeiros na Camara Municipal nao ha niguem a falar a lingua! E inadmissivel! Jamais exigiria que a menina do supermercado ou a velhota das couves comecassem a falar de Shakespeare comigo.
Eu sei que o Antonio no fundo concordara comigo. E nao e por ser no Japao. Diria o mesmo noutro sitio qualquer!

Nem eu quereria que o mundo fosse todo como a America! Jamais! E e verdade que, nos ultimos meses, a coisa andou um bocadinho pior para estes lados. Mas ja passei essa minha fase de "I love to hate Japan". Alias, ja deve ter reparado nisso!

Eu compreendo o seu argumento. Mas eu nao gosto dessas aparencias que refere. Eu sou muito "pao, pao, queijo, queijo". Por isso e so mesmo problema pessoal.

Nao posso falar sobre os anglofonos em contraponto com os demais. Onde estou, e tudo anglofono. Ou quase. Mas ate consigo compreender o que me diz. Mas tambem vejo grandes diferencas entre as pessoas que aqui estao. Jamais os incluiria no mesmo grupo, apesar de serem todos "English speaking".

O Eca e o Antonio que me desculpem, mas nao podia discordar mais! E bem verdade que nao domino o japones, mas muitas vezes quando o uso as pessoas ficam a olhar. E ate lhe digo, que ja vi pessoas perfeitamente fluentes a falar japones e o seu interlocutor finge nao perceber. E uso o verbo "fingir" porque so pode ser isso mesmo!
Eu gosto muito da ideia de haver uma lingua quase universal com a qual se pode comunicar. E tao melhor assim.

Ainda uma coisa acerca dos jornais e afins, eu costumo ler o Japan Times. As vezes o Daily Yomiuri. Como ve, nao relatam os queixumes dos ALTs...

Tambem cheguei a andar pelo grupo no Yahoo, o dos falantes de portugues. Mas nao sabia dessa historia! E uma pena, obviamente!

E tudo de Oita. Se nao tiver sido muito pungente peco desculpa, mas acho que o meu cerebro tambem descansa aos domingos!

Angelo